sexta-feira, 13 de julho de 2007

Ah se ela dissesse...



A primeira vez que ela apareceu, flor do meu acaso, ficou determinado nas tábuas de lei, lá dos céus, o inicio do cisma entre meu passado de incertezas e o futuro improvável, embora ainda não soubéssemos que estávamos na chuva e ela iria nos molhar. Até o dia em que ela surgiu dançando o baile imaginário, numa saia de conteúdo improvável e sem nenhuma certeza estatística de que aquilo era de verdade e não uma ilusão de óptica, uma epifânia de quem não tragou e não duvida da fé.
Mas eu a vi na retina cansada destes olhos meus que, um dia, ainda muito distante, a terra há de comer, sem o sentido bíblico da coisa com a qual eu a devoraria, e senti o abalo nas minhas placas tectônicas, o sismo na minha abissal fossa sentimental. Desde então tudo que era ilegal, imoral ou que engorda, a metafísica, a oratória e o perfil do colesterol mudaram ao sabor dos seus encantos e do arco-íris de seu riso. Mas como tudo que me acontece além da linha do horizonte, não sai como rezam as lendas e o horóscopo chinês, ela deixou meu coração no bung-jump existencial, oscilando como um samurai bêbado, num haraquiri de fazer inveja a piloto japonês.

Ah, mas se ela soubesse que, desde aquela vez, em que veio ao meu mundo tal qual uma Eva, sem a parreira, e viu a maçã virar sobremesa, eu dividiria o universo em dois hemisférios, abaixo e acima do seu piercing no umbigo. Ah se ela dissesse que é louca por mim e que ficaria no meu corpo feito tatuagem pra me dar coragem de seguir viagem e outras canções.
Ah se ela dissesse que é louca por mim e batesse a porta do seu casulo para nunca mais voltar e fizesse comigo uma casa no campo. Eu juntaria as mãos para o céu e agradeceria por ter alguém que eu gostaria que andasse comigo na rua, na chuva, na fazenda e na casinha de sapê, que a vida nada mais é do que esse velho cantar de ilusões.

Se ela soubesse que por ela eu aprenderia uma nova língua, decifraria os sinais de fumaça, comeria manga com leite e mudaria a ordem das constelações celestes para que seu riso passasse a orientar os navegantes solitários como eu.
Se ela soubesse que pularia de para- quedas e contaria a história do mundo no seu ouvido feito uma Sherazade online e com segundas intenções, para garantir que funcionaria regularmente por ser sábado e outros dias da semana, por mais que mil, por todas as noites de minha vida, perdido no pôr-do-sol dos olhos dela que acontece todos os dias entre lugares tão distantes como a primavera e o verão, o pólo norte e sul, o equinócio e o solstício.

Por ela aprenderia a dançar, o nome das flores, cavalgaria o minuano, andaria sobre os telhados e por seu beijo removeria montanhas e iria a Maomé e a tornaria meu orixá regente. Só por ela, tão linda, tão linda, tão linda, que confunde meu sono e sonho, eu desviaria a rota dos cometas e a hora de Greenwich.
Eu faria tudo diferente, sem meter os pés pelas mãos. Ah! Eu acordaria. Mas só se ela dissesse, se ela dissesse, que é louca por mim...

2 comentários:

Fátima disse...

Menino!
Depois de ler esse texto, fico mais firme na decisão de não deixar minha filha fazer um piercing no umbigo(hahahahah)!
Beijo

Manu disse...

rsrsrsrsrsrsrs