sábado, 9 de junho de 2007

O inverno que nos alcança


Nem foi chegando devagar como visita receosa, na porta. Não, foi logo mostrando a que veio, botando banca, delimitando território como bicho recém chegado, trazendo perigo com uma trovoada destas que só ronca por aqui, para mostrar as fragilidades da cidade, despreparada e descuidosa de sua beleza.
A chuva repentina e sem sovinices surpreendeu as pessoas anunciando que o outono está caminhando para seu finalzinho de domínio, as folhas começam suas despedidas, feito notícia de gente que vai se ausentar.

Depois do aviso começamos a sentir que aquele vento de fogo, seco, ácido, duro, soprado feito açoite das redondezas da caatinga, trançado na poeira, cheiro de bosta de boi e velame, vai esmaecendo, trocado por outro mais ameno, úmido, com mais pétalas de água no seu embornal.

Ele vai chegando devagar, mudando as cores dos jardins, como se tivesse vindo de muito longe, das lonjuras que só os ventos e as dores podem vir, e fosse um bando anunciador do inverno. Nas ruas do centro as mulheres já exibem casacos que cheiravam a guardado de tanto esperar e os vendedores ambulantes já oferecem guarda-chuva, nas sinaleiras. O mingau de milho, ali na praça da Alimentação, torna-se quase uma obrigação na madrugada.

As lojas de roupa, me diz Dona Tércia, da Vest, já começam a anunciar as liquidações de sua moda de verão. A noite vai esfriando, pedindo coberta e paz entre os casais pois todo mundo sabe que não se deve brigar nos tempos de frio e por aqui o povo é mais sabido do que tudo, de todo povo desta boca de sertão, a gente que fica aqui entre o recôncavo e o semi-árido, com umas lapadas de vento marítimo, que viaja das praias da Bahia e se dissolve nos outros ventos, que todo mundo sente ainda que não se aperceba.

Há o espetáculo de olhar pela janela, manhã cedo, e ainda ver a neblina que levanta devagar, com preguiça de acordar e tristeza de separar-se da cidade, cortada em fatias pelos que correm nas avenidas e madrugadores do trabalho, e pelo alto dos edifícios, que Feira já vai por bem de ter uns trinta e cinco deles, fazendo recortes no horizonte, como se fossem as montanhas que não temos.
E os corações abalados pelas aventuras do verão vão se entregando feito quixotes que desistiram dos moinhos de vento e buscando o aconchego dos amores de inverno, mais delicados e permanentes.

Nas casas, os chás e o chocolate quente voltam a mesa, o café na livraria Atlântica, de Romeu, e nas tapiocarias é um prazer quase irresistível. O foundee, um estrangeirismo de gosto adotado por muitos feirenses e o vinho, prometem ser a moda da estação.

Prova que estamos mesmo prestando mais atenção à mudança do tempo é que, ousadamente, o restaurante Tomatte Secco, anuncia um festival de inverno, com temporada de jazz e MPB, dando um refresco nos ouvidos exauridos de axés, pagodes e similares. E, vez por outra, eu mesmo tenho surpreendido a lua, exposta e nua, em plena tarde, perdida de amor pela vida nos antigos becos, ou quem sabe procurando uma pamonha de Noratinho, os vaqueiros e fidalgos do Campo do Gado, a Santana dos Olhos D’Água.
O inverno já galanteia a elegância das mulheres, o verde do chão, as plantações das roças e a fartura do São João e embora ele só assuma oficialmente lá por vinte e um de junho, eu sei e sinto que ele já é um tempo que me alcança

3 comentários:

Dom disse...

Primeiro gostaria de elogiar a excelência do texto, estilisticamente falando... muito elegante. Difícil ler Feira de Santana em palavras tão bem articuladas.

O inverno é minha estação - fisicamente e espiritualmente -, de maneira que quando junto com ele me alimento dos recantos e peculiaridades de minha cidade (a Princesa do Sertão), não me contenho em prazeres.

Por fim, faço uma ressalva: aos "chás e o chocolate quente" adicione-se o café, que, até mesmo na Livraria Atlântica, é meu companheiro inseparável de inverno.

Fátima Sta. Rosa disse...

César,
Que inverno lindo você pintou! Fiquei com vontade de conhecer essa 'sua' cidade, nesse 'seu tempo'. Aqui, também me encanto com a chegada dele nas pipas que meninos empinam por toda a cidade. E a lua! Ah, a lua...

Eduardo Leite disse...

Muito bom texto, e a lembrança de que o vinho tinto é bem vindo neste inverno sertanejo .Quanto ao chá e chocolate deixemos para os nossos avós.Vamos mesmo é de vinho tinto e café forte no final da empreitada.