terça-feira, 22 de maio de 2007

O papel do caranguejo na abordagem amorosa


As mulheres que já não estão na faixa etária do, digamos, sub-30, compõem o que a demógrafa Elza Berquió, do IBGE, chamou em seu livro, de Pirâmide da Solidão. São mulheres autônomas, profissionais liberais, com independência financeira e competência sexual, separadas ou solteiras, que não encontram sua metade da laranja, nem um homem pra chamar de seu.

É certo que o início cada vez mais precoce da vida sexual feminina, além do impacto no aquecimento global, ampliou a oferta no mercado da sedução e do acasalamento, facilitando aos homens resolverem com duas de vinte, e módico investimento, as necessidades dos quarenta, mas não é só isto que está deixando estas mulheres sem parceiros para reconstruir uma família.

Decerto, também, que não é só culpa do papa de convicções neanderthais que disse ser o segundo casamento uma praga social, mas a verdade é que passado a fase do canibalismo e desforra – ou atualização muscular como dizem algumas- sexual que as mulheres costumam vivenciar na pós- separação fica quase impossível encontrar um homem que esteja disposto a construir uma relação permanente mesmo com casa, comida e roupa lavada. Aliás, a famosa atriz Zsa Zsa Gabor costumava dizer que não perguntassem a ela nada sobre sexo pois sempre fora casada.

Estas mulheres sozinhas que rolam pelos sites de encontros, vernissagens, lançamentos da moda, se não esperam mais o príncipe no cavalo branco, não perderam a ambição suprema de suas almas, que é o amor. Elas se cuidam, malham como atletas, tratam-se como modelos, usam os melhores cremes e, vá lá que seja, usam um botox aqui e ali. Vestem-se com elegância e são capazes de conversar sobre o declínio da civilização ocidental com a mesma facilidade que trocam uma dieta infalível, ou uma receita diet.

Livres e experientes são capazes de prometer e cumprir com esmero os desejos masculinos, mas exigem em troca companheirismo, bom gosto, indispensavelmente uma conversa inteligente, se possível alguma habilidade culinária, sensibilidade e - que elas nunca deixarão de gostar- firmeza de intenções. Enfim, um parceiro master-plus.

A diversidade de informação, ganhos e liberdade tem elevado o padrão de satisfação das mulheres, fazendo com que os homens, mais lentos nas adaptações, como dinossauros urbanos, tenham dificuldades em conquistá-las. Como não há bula, nem re-treinamento, os homens continuam abordando erroneamente as mulheres com padrão de exigência mais elevado.

Recentemente, almoçava com um grupo e uma amiga, médica, viajada, bem sucedida, mantinha agradável conversa sobre cinema e literatura, dois interesses que temos em comum. Até que o papo tomou o rumo dos relacionamentos e a queixa geral foi a dificuldade, a escassez de homem no mercado, corroído pela banalidade e pela crescente onda gay. E, entre um suspiro de desilusão e riso, me contou sua última experiência.

Estava com amigas em um aniversário, elegantíssima, vestido longo, a base da taça de vinho presa entre os dedos, como convém, quando foi apresentada a um homem que lhe pareceu atraente, tendo iniciado aquele rito de investigação desinteressada e casual que faz toda mulher antes de aceitar a cantada. A coisa já tinha meio caminho andado, embora ainda não o suficiente para dilacerar o vestido, quando ele atirou no próprio pé.
- escuta, adorei te conhecer, porque não saímos amanhã pra comer um caranguejo na Cabana da Cely?
-Agora imagine meu amigo, eu, depois deste investimento todo que fiz em mim, no sol de meio dia, com um porrete na mão – tac, tac, tac-, quebrando patinha de caranguejo, toda lambuzada! Nada contra os braquiúros mas no primeiro encontro? Que futuro isto pode ter? Com um mês eu vou tá onde? Encarando a maré vermelha e me acabando em cima da mesa no pagode em Cabuçu!

Nunca mais reclamei por ser alérgico a caranguejo. Deus, agora creio, realmente escreve certo por linhas tortas...

Um comentário:

Angélica Lins disse...

(risos...risos...e mais risos)
Preciso mesmo voltar aqui...
Adorei!!!