terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Um ano dez


Mais que o ano que finda, com suas perdas e danos, suas glórias e gozos, é o que vem por aí que interessa. Por isso não permita que o ano que vem apenas aconteça em sua vida. Não o desperdice. Estalando de novo, ele é uma tabula rasa. Inscreva sua marca nas tábuas de sua lei e tente entregar um mundo melhor a todos os seus. È sobre tua pedra que se erguerão as maiores edificações.

Não se deixe levar pela aparência em detrimento do conteúdo, nem por discursos oportunistas que satanizam opositores apenas com o intuito de usurpar o poder e atender os próprios interesses seja de que lado for. Não ceda no seu direito de cidadão, não renuncie a sua liberdade -direito inalienável e inviolável do homem-, em troca de nenhum projeto revolucionário que apenas tece nova casta de dominadores. O homem é sagrado no seu livre-arbítrio e palavra.

Não se conforme com a mediocridade. Não se baste com quinquilharias oferecidas por governantes e não ceda à tentação das oportunidades fáceis. Não compactue com o erro, mas compreenda a limitação do humano e perdoe quando for preciso. Não tolere os corruptos, não reparta seu lar, seu convívio, com quem prefere a bajulação, a riqueza ilegal, a exploração da miséria alheia. Vire-lhe as costas. Negue-lhe o bom dia. Porque basta aceitarmos para que estejamos compactuando. Não é preciso enfrentamento para a recusa.

Não aceite a terrível leniência da justiça, a ocupação do poder – qualquer poder- para desvios, a polícia que prefere o crime à honra, a educação meia-boca, os serviços públicos mal executados. Exiga qualidade. Fiscalize e proteste, pois o dinheiro público roubado é suor do seu trabalho, é beneficio que não lhe chega. Não se deixe enganar por gente que não passa de detergente de agência de propaganda, não creia em discursos messiânicos, em salvadores de ocasião.

Exerça sua autoridade familiar, e autoridade não é violência, é transmissão de exemplos e princípios. Não deixe que os limites morais de seus filhos sejam invadidos e violados pela música, roupas, pelas imagens de baixo calão em nome de uma falsa liberdade, que é apenas mercantil. Repudie o que for apelativo. Não envelheça seus filhos precocemente. Não fique acuado. Uma sociedade se constrói do equilíbrio e respeito mútuo e não da permissividade. Não consuma os irresponsáveis que fazem apologia pública das drogas como símbolo de rebeldia e criatividade. Que reservem suas escolhas aos escombros de seus bastidores.

Não dependa da felicidade da farmácia. Seja atento e cuidadoso com os detalhes com você próprio e com os demais. Trate-se bem e estará pronto para fazer isso com os outros. Descole um tempo para as visitas e os abraços. Eduque-se. Não desista de aprender. Não somos nunca uma obra terminada. Não se deixe explorar por mercadores da fé interessados no seu dinheiro, não na sua redenção. Não aperte a mão de quem rouba, não abra a porta de sua casa a quem não merece respeito, a quem comercializa a dignidade ou o verbo, aos cúmplices da imoralidade.

Sim, estamos em luta. A liberdade e a censura, a segurança e o crime, a educação e a ignorância, a devassidão política e a moralidade pública, a justiça e a impunidade, a família e a individualidade, o bem e o mal. Não deixe que o ano que vem te coloque do lado errado.

Seja feliz e faça com que este ano seja 10.


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

TUITADAS NA CRISE

Prudente é aquele que temendo o futuro faz logo o seu pé de meia

Olha ai, caso algum preso queira comer sua bunda, pense antes de dizer não, afinal o cara pode acabar presidente

Em São Paulo R$ 40 milhões do DETRAN sumiram pelo DESVIO. Deve ter sido falta de sinalização...

O político brasileiro gosta muito de meter a mão na massa por ter a certeza que tudo acaba em pizza

Aviso: quem for me dar Panetonne no Natal eu prefiro dinheiro para guardar na meia.

Governo brasileiro vai fazer um brechó na Embaixada de Honduras pra se livrar do mobília encalhada do Zelaya

Ao que se sabe Lula falou sobre o "Menino do MEP", mas parece que ele não levou o estupro a cabo.

Triste UNE, obrigada a conviver com as Chagas

Depois do vestido curto na UNIBAN e da briga pelo celular na FAAP, não tem mais dúvidas: o barraco universitário vai bombar no verão!

Um homem foi roubado na esteira da academia em Vista Alegre ( Rio). Ao que parece não deu tempo nem de correr...

Lula disse: "eu não fico sem buceta" . Vem ai o bolsa-xereca

Disse-me uma amiga que o crepúsculo do macho tá tão acelerado que nem querendo dar tá se conseguindo receber

Depois de Itaipu os reprodutores, Lugo do Paraguai e FHC irão se encontrar para lançar a pedra fundamental de uma creche binacional para filhos de presidente.

Lulinha Linhas Aéreas é a única que apesar de não ter programa de milhagem faz todo bilhete ter embarque premiado

O Rio de Janeiro sempre lançando a moda do verão: primeiro foi a maconha em lata, agora é o apagão surpresa.

“EUA deveria ajudar China ir à Lua, diz Buzz Aldrin”. O perigo de botar chinês na lua é que no outro dia aparece uma cópia barata no céu.

O governo anuncia que 53 Terreiros de candomblé de Salvador serão revitalizados. Ao que parece só falta o governador assinar o despacho.

A evolução do homem é pura geometria. Começa como uma besta quadrada e acaba como um porco redondo

O tuiter é a Arca de Noé do apagão

Aviso: Caetano acha o blecaute cafona

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A CRONICA DO JABOR

Blogs, Twitter, Orkut e outros buracos

Existe um 'sub-eu' vagando na internet (Arnaldo Jabor)

[fonte: jornal O GLOBO, Segundo Caderno, ter 03.11.2009)

Não estou no Twitter, não sei o que é Twitter, jamais entrarei neste terreno baldio e, incrivelmente, tenho 26 mil "seguidores" no Twitter. Quem me pôs lá? Quem foi o canalha que usou meu nome? Jamais saberei. Vivemos no poço escuro da web. Ou buscamos a exposição total para ser "celebridade"ou usamos esse anonimato irresponsável com nome dos outros. Tem gente que fala pra mim: "Faz um blog, faz um blog!" Logo eu, que já sou um blog vivo, tagarelando na TV, no rádio e em jornais... Jamais farei um blog, esse nome parece um coaxar de sapo boi. Quero o passado. Quero o lápis na orelha do quitandeiro, quero o gato do armazém dormindo no saco de batatas, quero o telefone preto, de disco, que não dá linha, em vez dos gemidinhos dos celulares incessantes.

Comunicar o quê? Ninguém tem nada a dizer. Olho as opiniões, as discussões "on line" e só vejo besteira, frases de 140 caracteres para nada dizer. Vivemos a grande invasão dos lugares-comuns, dos uivos de medíocres ecoando asnices para ocultar sua solidão deprimente.

O que espanta é a velocidade da luz para a lentidão dos pensamentos, uma movimentação "em rede" para raciocínios lineares. A boa e velha burrice continua intocada, agora disfarçada pelo charme da rapidez. Antigamente os burros eram humildes; se esgueiravam pelos cantos, ouvindo, amargurados, os inteligentes deitando falação. Agora não; é a revolução dos idiotas on line.

Quero sossego, mas querem me expandir, esticar meus braços em tentáculos digitais, meus olhos no Google ("googles" - olhos arregalados) em órbitas giratórias, querem que eu seja ubíquo, quando desejo caminhar na condição de bicho bípede; não quero tudo saber, ao contrário, quero esquecer; sinto que estão criando desejos que não tenho, fomes que perdi. Estamos virando aparelhos; os homens andam como robôs, falam como microfones, ouvem como celulares, não sabemos se estamos com tesão ou se criam o tesão em nós. O Brasil está tonto, perdido entre tecnologias novas cercadas de miséria e estupidez por todos os lados. A tecnociência nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas vivas, chips, pílulas para tudo, enquanto a barbárie mais vagabunda corre solta no país, balas perdidas, jaquetas e tênis roubados, com a falsa esquerda sendo pautada pela mais sinistra direita que já tivemos, com o Jucá e o Calheiros botando o Chávez no Mercosul para "talibanizar" de vez a América Latina. Temos de "funcionar" - não viver. Somos carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa. Assistimos a chacinas diárias do tráfico entre chips e websites.



ESCRITORES FANTASMAS

O leitor perguntará: "Por que esse ódio todo, bom Jabor?" Claro que acho a revolução digital a coisa mais importante dos séculos. Mas estou com raiva por causa dos textos apócrifos que continuam enfiando na internet com meu nome.

Já reclamei aqui desses textos, mas tenho de me repetir. Todo dia surge uma nova besteira, com dezenas de e-mails me elogiando pelo que eu "não" fiz. Vou indo pela rua e três senhoras me abordam - "Teu artigo na internet é genial! Principalmente quando você escreve: "As muheres são tão cheirosinhas; elas fazem biquinho e deitam no teu ombro..."

"Não fui eu...", respondo. Elas não ouvem e continuam: "Modéstia sua! Finalmente alguém diz a verdade sobre as mulheres! Mandei isso para mil amigas! Adoraram aquela parte: "Tenho horror à mulher perfeitinha. Acho ótimo celulite..." Repito que não é meu, mas elas (em geral barangas) replicam: "Ah... É teu melhor texto..." - e vão embora, rebolando, felizes.

Sei que a internet democratiza, dando acesso a todos para se expressar. Mas a democracia também libera a idiotia. Deviam inventar um "anti-spam" para bobagens.

Vejam o que eu "escrevi": "As mulheres de hoje lutam para ser magrinhas. Elas têm horror de qualquer carninha sainda da calça de cintura tão baixa que o cós acaba!" Luto dia e noite contra os cacófatos e jamais escreveria "cós acaba!" Mas, para todos os efeitos, fui eu. Na internet eu sou amado como uma besta quadrada, um forte asno... (dirão meus inimigos: "Finalmente, ele se encontrou...")

Vejam as banalidades que me atribuem:

"Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!"

Ou: "A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche!"

Ainda sobre a mulher: "São escravas aparentemente alforriadas numa grande senzala sem grades."

Há um texto bem gay sobre os gaúchos, há mais de um ano. Fui "eu", a mula virtual, quem escreveu tudo isso. E não adiantava desmentir.

Esta semana descobri mais. Há um texto rolando (e sendo elogiado) sobre "ninguém ama uma pessoa pelas qualidades que ela tem" ou outro em que louvo a estupidez, chamado "Seja idiota!"...

Mas o pior são os artigos escritos por inimigos covardes para me sujar. Há um texto de extrema direita, boçal, xingando os brasileiros, onde há coisas como: "Brasileiro é babaca. Elege para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari. Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira. Brasileiro é vagabundo por excelência. Um povo que se conforma em receber uma esmola do governo de 90 reais mensais para não fazer nada, não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo, 90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira. Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como 'aviãozinho' do tráfico para ganhar uma grana legal. Se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora... O brasileiro merece! É igual a mulher de malandro - gosta de apanhar..."

E o pior é que muita gente me cumprimenta pela "coragem" de ter escrito essa sordidez.

Ou seja: admiram-me pelo que eu teria de pior; sou amado pelo que não escrevi. Na internet, eu sou machista, gay, idiota, corno e fascista. É bonito isso?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Devaneio

Não, não seguirei tuas ruas habitadas. Nada sei de todos. O meu desejo é mandiga para te virar do avesso. Por isso quero as linhas ocultas de teu corpo, as intocadas, as que, como orquestras, vibram em concerto, quando os dedos, ou a língua, recitam teu dialeto, na pressão exata.

Não me rendo as promessas de ocasião, ou folhetim, que sabes dizer. Não admito nosso santo nome dito em vão. Não ouço e não digo o que rola por aí. Mas quero seu ouvido para saciar as sílabas que trago na minha espera e exílio para compor - gelo deslizando sobre o nervo exposto-, os dizeres que não disse, as palavras de amor e as devassas, as que se ocultam no teu imaginário de fêmea, para que seja amada e puta, aprendiz e dona do pedaço, feitora e escrava, nas tardes de abandono.

Não me interessa tuas andanças. Serei nomade deste início. Cruzarei teus meridianos, invadirei como barbáro as portas do relicário, por meu território. Onde te inauguro, me nomeio. Migro, e te sei de milagres, no que dilato e amplio quando me ofereço para tua doma, como se fosse eu tua mulherzinha.

Que dançe, sem fios que te conduzam para fora do labirinto. De mãos dadas faremos um pacto de sal e vinho, e nos atiraremos. E teu prazer em voar será minha única tábua de salvação...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ilusões

Mulher - Riolan Coutinho

Não é o que tenho que me pertence.
Nem os seios que margeio
Ou o que tem endereço
e boca vândala de promessas.
Nem o que tenho guardado
-teu ouro do melhor-
ou o que me é dado
no altar dos sacrifícios.

Não é o que tenho que me pertence,
pois meu verdadeiro é só o que me iludo ter.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Quando ela diz te amo

A Maja Desnuda - Goya


A vida sempre tem motivos para seu começo. Mas, como é breve e não há provas de sua reedição, convém evitar desperdícios. O que seria fácil se soubéssemos exatamente onde fica o marco zero. O cais do gênesis. Os ensaios de amor, a cantada original ou pelo menos a previsão de quando irá chover nas amendoeiras com a mulher certa.

Sim, com a mulher de sua vida. Deixemos de fingimentos, ou de nos orgulhamos de quantos brinquedos de adultos podemos comprar, pois nada disso nos fará invencível, capaz de matar dragões, dançar a valsa vienense, ouvir milhares de vezes a mesma canção no CD do carro, comer tomate com orégano ou estourar a conta de telefone só para ouvir uma madrugada ela dizer que está pensando em você mais do que a lei e as normas de boa conduta recomendam. Ela é o que interessa. O resto, seja versos no jornal, a presidência da empresa, ou o carro do século, são só disfarces, nossa dança de acasalamento, baile nupcial, nosso rugido mais alto para chamar sua atenção, visto que, ficar nu, além de ser atentado ao pudor, pode causar decepções abdominais no mercado especulativo e sarado das conquistas.

Assim como o César, não eu que mal vivo de não embaraçar minha perna na outra quando danço, que corro risco de me afogar até em pote de mágoa, e nem lembro a placa do carro e morro de vergonha no estacionamento, mas do outro, romano, que foi, viu e venceu, aprendemos que, o vir, ver e vencer, é conquistar de forma irreversível e sem insurreição, o amor de uma mulher. É tornar-se a razão do seu choro quando viajar e, de outro, ainda maior, ao retornar, são e salvo, de um dia longe. Ou ela ser tomada por uma semana de tristeza incurável só por imaginar que poderíamos morrer antes dela, com este jeito devoto que só as mulheres sabem ter e que funciona como nosso programa de milhagem existencial, uma apólice que nenhuma outra emoção pode cobrir. E quanto nos fragilizamos como meninos e nos fortalecemos feito heróis quando ela murmura que a deixamos louca e que somos sim, muito, muito bons, como se tivéssemos sido aceitos como Cavaleiros da Távola Redonda. Ah, nós homens, pobres homens.

Mas, para a plenitude, ela exige sabedoria e doação, por isso é necessário que não venha tão cedo que ainda não saibamos as renúncias da cumplicidade nem tão tarde que os desenganos já tenham deletado nossas utopias. Porque se a perdemos é como um gineceu cinzento que nunca se desfaz em primavera. Perdê-la é não poder imaginar o sol abrindo a janela e acordando nossos olhos em comuns, a pertencência, a casa com os quadros e fotos na parede e as histórias no tapete, a mesa do jantar como a velha fogueira aonde se reuniam os antepassados, o parto e os filhos alinhavando a memória e os objetivos comuns, os abraços como os anéis de Saturno, o amor com perdão, o riso como a senha para devorar a esfinge do cotidiano.


Porque há um alumbramento em toda terra, um desvio inexplicado de seu eixo, um destino que se remodela na oficina das divindades, ou diante dos peixes, o fio que as deusas que tecem a vida se retardam em cortar, um dialeto que se funda para o casal, uma aliança, um anel de esperanças e fogo, tatuando a posse. Porque há uma repentina onda de fertilidade e todos os úteros se tornam qualquer coisa de grávidos e o tempo de esperar se faz tua colheita. Porque há algo que, de repente, nos fecunda e cura nosso país quando ela diz te amo. Só quando ela diz te amo...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A mulher

Midsummer Eve - Robert Hughes
Toda mulher é uma língua. Própria. Um dialeto individual, composto de códigos e símbolos a ser percorrido, para ser perfeitamente vivido, em lentidão torturante. Ela é toda tecida de audição. Pois a mulher não ama o que vê, e sim o que ouve. Não ama o que está ao relento, exposto, mas o que se revela na bateia, na lavoura de decifrar o que lhes dizemos. É nossa homilia e discurso que a possui e domina, que a cerca e doma, e nos inscreve, sem alforria, na memória. A fala é nosso aboio, de guia e prazeres. É do nosso dicionário de significados que será demarcado o tempo de nossa permanência e trato.


Toda mulher é composta de missais e tato. Porque sua pele é um pergaminho a espera dos rumores de nossos lábios e mãos, e se tatua de nossos desejos como se fossem todas as ambições dela, como quem mimetiza suas faltas pelos beirais do outro, e oferece suas sesmarias para ocupação e moradia. E, de nossa dedicação em lhe desvendar as veredas inaugurais, de roçar com a voz os delitos do seu imaginário feminino, é que se erguerão os altares de nosso ofertório, se inscreverão as escrituras de longevidade, os indultos de nossas falhas, os liames que impedem os degredos.

Toda mulher é o linguajar, a vindima, de uma pátria. Eu? Sou só exílio.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Amores Eletrônicos


Antigamente as gerações duravam uma década. Atualmente, dizem que dura seis anos, mas eu acho que dura só o tempo de sair uma nova versão eletrônica para a comunicação - e se comunico logo seduzo - entre homens e mulheres. A coisa começou com o tacape – método eficiente e que evitava gastos com jantares e showzinhos de pagode antes do escurinho da caverna -, passou por sinais de fumaça, pombo-correio, alcoviteiras e saraus até chegarmos às românticas e perfumadas cartas de amor.

Um grande salto foi a invenção do telefone que permitia falar as barbáries imaginadas, como o desejo de alisar o tornozelo da amada, enquanto se manipulava freneticamente a manivela. O telefone evoluiu, mas as gerações continuavam iguais. Até que, duas revoluções, e não foi a pílula, vieram modificar de forma substancial a vida sexual, causando um impacto maior do que as empregadas domésticas tiveram na nossa história, exceto, talvez, não estou bem lembrado, a minha em particular. Falo do torpedo do celular e chats de conversa nos computadores.

Os antigos devem se lembrar que assim que o e-mail foi criado Adão chamou Eva para teclarem do fruto proibido e trocar mensagens, o que resultou em muitas maçãs devoradas, porque mulher nenhuma se contenta em receber comida só uma vez. Mas ainda persistia algo do imaginário daquelas cartas escritas em nanquim, embora digitados e enviadas por modens lentíssimos.

A evolução começou com o mIrc e os e-groups para conversas coletivas e alguns hot-hot-hot papos privados, creio que alguns usuários trogloditas ainda se recordam. A partir daí, a coisa e as gerações se aceleraram, e, quando você toma pé em uma ferramenta tecnológica, tudo já mudou, fazendo com que estejamos não só duas doses abaixo do normal, mas duas gerações atrasadas. O torpedo do celular virou uma espécie de tacape sem os inconvenientes dos hematomas, e serve para abordar, marcar, dispensar, dar as desculpas perfeitas e ocultar aqueles gemidos que o telefone poderia expor, sendo hoje tão indispensável à vida sexual quanto a camisinha e o Viagra – desde que honesto como um legitimo escocês.

No computador, as possibilidades se multiplicaram e a webcam permitiu uma intimidade e exposição de profundidades anatômicas e performances jamais imaginadas. Ela se tornou quase um disque-delivery, pois quem tem uma só termina a noite no zero a zero se faltar luz ou cair o sistema, o que equivale à broxada de antigamente.

Já o MSN permitiu a sedução múltipla, como nunca antes neste país, pois há mulheres que mantém o jogo com uma centena ou mais de admiradores na sua janela, ao bel prazer de sua escolha, ou acesso, provando que, sim, vários corpos podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Além disso, surgiu o Orkut, com fotos, recados, perfis, flagrantes, egos e oportunidades de exibir o próprio corpo ou desejos a uma infinitude de olhares, facilitando a triagem entre a rede e a cama.

O terrível é quê, embora a humanidade pudesse ser dividida entre os com e os sem Orkut, muitos já estavam se integrando, quando explodiu o Twitter, Facebook, Flick e similares, fazendo com que ficassem tão defasados quanto uma carta de papel dizendo que o amor por um jardim avesso deve ser cumprido como destino e sina por um jardineiro fiel.

O “tuiter”- esclareço para os não colonizados- é multifuncional, instantâneo e curto, embora não seja grosso. O máximo que se pode digitar são 140 caracteres, o que traz a vantagem de limitar as asneiras. Alguns dizem até que usar o tuiter é como fazer sexo, não lembro bem, pois quanto mais apertado o espaço maior o prazer.

Enfim, a verdade, é que a velocidade de mudança na comunicação tem mudado profundamente as relações humanas, comerciais, afetivas e até sexuais. Os abatedouros machistas, a garconniere, foram substituídos por cômodos virtuais e as cantadas passaram a combinar o máximo de eficiência com mínimo de caracteres.

Não sei como será o amanhã. Mas durmo sempre assustado com medo de acordar, não impotente, mas obsoleto. O que dá no mesmo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A falta que a mulher faz

Monica e Magali de Rosa e Azul de Renoir
Por acaso sua mulher viaja para congressos, cursos, ou você, como um terço dos homens, já é separado? Então sabe do que vou falar. Você já se viu na prateleira do supermercado, frente a uma dúzia de frascos coloridos tentando diferenciar desinfetante, detergente e alvejante? Especialmente se sua mãe lavava tudo com sabão em barra? E da marca Campeiro, o melhor? Ou diante do dilema socrático de adivinhar como ficará o cheiro de sua casa se preferir o eucalipto a floral? Ou qual deles estraga menos a pele da mão, conforme recomendou sua diarista?


Você sabe qual marca de sabão em pó tem o aditivo mais aditivo, que lava mais branco, conferindo à roupa de seus filhos um brilho de fazer inveja a qualquer outra mãe? Pois tenha certeza que é mais fácil tentar decifrar o enigma da Esfinge do que resolver essas charadas. Ou então fazer como eu que sou salvo pelas orientações de Ana Luísa, minha filha de sete anos: “pega o do ursinho pai!”Aliás, ela gosta tanto de falar que não pude deixar de rir quando, ao fazermos feira, ontem, ela me disse que sua palavra predileta é etecetera. Só podia.


Mas, a menos que você tenha sido escoteiro ou aprendido durante seus anos como marinheiro, a dar nós, está ciente das dificuldades de fazer um coque no cabelo comprido de sua filha, para que ela vá à aula de ballet? Você conhece exatamente a diferença entre scarpin e uma alegoria para a festa do bumba-meu-boi? Ou por que ela prefere tiara a pompom (seja lá o que isso for) e outros enfeites mais, se antes era tudo maria-chiquinha? E que piranha não é exatamente aquilo que você estava acostumado, mas algo para prender o cabelo?


Você já passou a vergonha de chegar em casa com dez frascos de amaciante de roupa, que comprou na promoção, achando que fez um grande negócio, e a cozinheira te olhou com ar de desdém duvidando seriamente de sua capacidade mental, ao lhe explicar, tão calmamente quanto possível, que ela era cozinheira, logo, o amaciante, era para carne? Ora, diabos, como ninguém lhe explicou que havia um produto especifico só para amaciar carne se no seu reino de homem todo mundo só fala das carnes durinhas?


Tal como um general diante das opções de uma batalha você já teve que escolher se o que sobrou do almoço deve ser guardado no forno, freezer, geladeira, antes ou depois de esfriar, ou se é melhor jogar tudo fora e dizer que uns amigos apareceram de repente e comeram tudo, sem arriscar outra sessão de avaliação do seu QI? E por que raios tem tanta opção na máquina de lavar e não só dois indicadores: lavando e lavado?


Viver, como dizia Guimarães Rosa, é muito perigoso. O lar é um terreno movediço, onde a cada passo afundamos em um emaranhado de novos significados e, no qual, se fala um estranho dialeto de usos e costumes, só acessível aos iniciados. Sei que existem inúmeras outras coisas que fazem das mulheres nossa certidão irreversível, e sei que, uma ou outra feminista, com menos senso de humor, pode julgar que as estou diminuindo, mas a verdade é que basta tentarmos sobreviver sozinhos, em casa, para que percebamos a falta que a mulher faz...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Pequeno acalanto para a memória

Olympia - Rene Magritte

Dizem que a paixão de uma mulher pode passar, a sua memória nunca. Tê-la, é ocupá-la, inscrever detalhes na sua alma e pele, sem renúncias. Findo o tempo de acontecer, esgotado ou não as possibilidades, a calmaria virá, o beijo que se pediu para não beijar em mais ninguém e as danças se diluirão, mas o possuído não se desocupará.

Então, impagável que é, uma hora qualquer, ainda que por um segundo, ela lembrará. Atiçada por encontro casual, um aceno, uma vista da noite entre a lagoa e o mar, uma música, um Outubro qualquer. E ouvirá o que ele diria: " eu digo que é de tua permanência e entrega, de tua fala ancestral e capacidade de refazer mistérios e reatar o rumo das rotas perdidas no mar, de tua alma semeada de lírios e alegorias que me teço homem.

É dos teus horizontes, aonde, manso e indefeso, o sol, em arreio, vem se pôr, que se faz o alcance de meus olhos. E, se, nos dias de chuva e distância o mundo inteiro se encharca de tua falta, na tua vinda minhas alegrias de menino se enfeitam de alecrins e esperanças, das taças em comum, e minhas ruas de pedra e, às vezes, escuras, se enchem de velas, de lampiões e candeeiros, pra tornar segura a tua passagem.

De tua voz na profana confidência dos sentidos, promessas de não abrir mão e ser irremovível, de tua oferenda de cuidados e tatuagem de paixão no meu destino, ergo meu abrigo de sonhos e futuros, como os antigos que faziam suas casas com o que parecia insustentável, de óleo de baleia, ostra moída e barro e que, no entanto, resistiam ao açoite dos tempos ruins.

Assim, te proponho o amor dos que vivem distraídos, e oscilam entre a inocência da menina e a loucura dos instintos, dos que ousam domar os limites e não temem o fogo das condenações, dos que não se negam e cedem a primeira vez ao insensato e navegam os ventos revoltos como uma oferenda dos deuses à suas velas escancaradas.

Enquanto o desejo dilacera nossas roupas ao dançarmos te proponho a parceria dos que têm sede, dos que entrelaçam os dedos e as fomes e rezam suas rezas mundanas na comunhão das línguas, na margem delicada e enlouquecedora dos lábios entreabertos, dos que se perpetuam em cio e gozo irrepetível, e deixam escorrer em choro e sêmen sua conjuração de amores.

Na leve embriaguez do vinho anúncio em teu ouvido e dorso meus pedidos e teu corpo faz confissões despudoradas. As bocas tecem a indecente confidência: te amo, sem as regras do ofício, como se o manto dos cardeais os protegesse dos medos e temores.

Assim que, teu homem realizado, antiga vontade adiada, de beleza e encanto, de rédeas inesperados, te envio cartas enquanto te fazes esquiva e rede de pescador, para que te tome derradeira e sacerdotisa, sem que nada mais, além dos céus, te esconda, sempiterna e nua."

Como uma eclipse dura um momento, mas ela sabe que entre o encontro e o resto de sua vida esta doação habitará a memória da ausência, que não finda de passar e nunca cede - aceiro e agonia-, a outra ocupação.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O VÈU DE SANTANA




Amo quando a cidade desperta vestida de neblina, como uma peça fina e delicada a cobrir seus pudores, a amenizar a dureza de seus contornos e de seu cotidiano, como se, de repente, fosse de céu, apenas, o horizonte de nosso olhar.

Amo quando estes fiapos de vento do mar, vindo das bandas da Bahia, resfriado na evaporação das águas, nos domínios de Yemanjá, se fazem feirenses, desmanchando-se feito amante no cio nos braços matinais e domadores do calor sertanejo, que limita seu viajar e o transforma em vapor esbranquiçado e cerração urbana.

Amo quando esta neblina silenciosa e cedeira vem e invade nossos corpos sob as cobertas, feito companheira e amada, cúmplice de sono e sonhos, neste passar sem destino que é o dormir. E quando empurra a manhã para depois, como se o dia pudesse custar a começar, a vida não fosse o desencanto de ser, e tudo se fizesse nesta preguiça de coisa alguma, neste tardar de não ir.

Amo quando esta festa de névoa e bruma faz parecer que abrir os olhos é inventar um sertão de fantasia, algodão-doce de menino, brincadeira de circo, feitiço de esconde-esconde, das ruas descalças, das cores mal pintadas, dos homens maus, das exigências e ordenações, das obrigações inevitáveis.

É como se fosse possível dançar nu, de nobrezas, títulos e vergonhas, por entre as árvores, até o orvalho mais derradeiro de suas folhas, de suas flores de enfeitar ilusões e flutuar nesta esteira de ar, como quem adormece sobre a pureza e a ternura depois de uma longa noite de amor.

Amo a cidade disfarçada sob a cor única de seu véu, a Feira, que lava suas dores neste anonimato urbano, como um abraço sem distinção de credos e ruas, todas iguais, como uma redenção do imaginário, sem rudezas, como se tropeiros tangessem, ainda, seus burros com barris e caçuás, suas boiadas, na poeira, e apenas o aboio pudesse nos guiar enquanto o álibi deste vento protetor e liquefeito cerca as lonjuras para quem acorda.

Amo a cidade rodeada de neblina, como se estivesse num cesto ao avesso e o céu fosse chão, e os bocapius pudessem ser abarrotados de esperanças nestas manhãs que se fazem num tecer de artesão, e não no correr de cavalos encantados, mas na lentidão maturada e musical de um carro de boi.

E, quando o sol se assume de responsabilidades e lentamente começa a desnudar minha aldeia de sua capa de inocência e serenidade para devolvê-la à agitação cotidiana e urgente, me desfaço. Mas, enquanto for este inverno, viverei de me reinaugurar, ainda que por breve ser, sob o véu de Santana.

RETORNO

Com a mudança da Tribuna Feirense para semanal e a criação de um portal na internet voltaremos a manter um espaço de crônicas e poesias na edição semanal. Assim terei dois espaços. Um no http://www.tribunafeirense.com.br/ onde estarão postadas as notas da Bodega do leegoza e este Empório, com textos de outro contéudo.

Abraços a todos, comentem, aproveitem para ler os textos antigos e obrigado.
César

sábado, 8 de setembro de 2007

A Pele com Nicole Kidman



Remetendo a nossa memória de A Bela e a Fera, a lenda, e ao filme de Cocteau, A Pele, embora lento em algumas passagens, contido, foi injustamente criticado por todos que adoram emoção servida em dose cavalar e exuberante, no estilo blockbuster.

Embora se refira a famosa fotografa Arbus, uma artista que teimava e insistia em relatar o inusitado, meio simbolizado no filme pelas aberrações humanas, ou excluídos, ele não é biográfico. E centra-se me construir uma história , uma explicação para suas escolhas.

Em verdade é apenas a trajetória de uma mulher insatisfeita – esta perigosa e tão comum cena humana-, desencontrada, que vai aos poucos se despindo física e metaforicamente. Para os que se sentem desobrigados de pensar ou de ver um filme e prestar atenção, ele é cansativo, mas para quem fizer o esforço, enxergará uma história de paixão desenfreada, de revelação, construída meticulosamente por Lionel ( que tem hipertricose, uma doença que faz crescer os pelos exageradamente) , a solidão , o encontro além dos limites até quando, finalmente, ela raspa todos os seus pelos e eles se entregam sexualmente. Antes da morte.

E quando ele enche uma bóia de ar e ela o respira depois de sua morte o lirismo e o desespero se antagonizam. Verdade que, filme com a Nicole Kidman, consiste em passar metade do tempo com a câmera fechada em seu esplendoroso rosto, em close, até a cena final de sua nudez.

Ela é de uma beleza que nos arranca da indiferença. O filme não é um espatáculo fenomenal, mas vale assistir. Para quem não precisa dos happy-end óbvios.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

As últimas flores de menina


Rosa e Azul-As meninas - Renoir


A nós, homens, só deveria ser permitido ser marido depois de criarmos uma filha. Não para decifrá-las, pois são por demais vastas, mas para facilitar nosso mimetismo às suas motivações e enigmas.


Talvez para que, criando uma, estejamos mais preparados para as outras, motivo pelo qual desconfio de todos os homens que não tiveram sequer uma irmã. Pois uma irmã nos prepara, desde muito cedo, para os ciúmes de macho, para um universo povoado de vontades incendiárias e desejos, e um morrer e ressuscitar diários. Ela nos ensina todas as armadilhas e feitiços de mulher que só elas compreendem. E elucidam nas demais.


Uma irmã nos educa para a opinião das outras, afinal, aquelas que nos interessa e, só por isto, noves fora tudo mais, já deveríamos ser-lhes gratos. Ela é quase como um pequeno manual de instruções, pois dizem, embora eu duvide, que são todas iguais.

Embora tivesse eu necessidade de umas dez filhas para aprender algo, pois a minha diz que nada sei, creio que ela foi encarregada de falar pelas outras nove. Desde os tempos em que me esperava chegar com disposição avassaladora para brincar, nossas brincadeiras inventadas e aquele abrir de porta sincero e desejado, ansioso, feito quem estende uma esteira de licuri para o sono de uma festa, o deitar da lua, e me ensinava que aquele é o olhar que todo homem busca, entre a esperança e a ilusão, encontrar um dia, na mulher amada.

Talvez por se contar e contar o mundo em minúcias e prosa longa, em narrativa de contador, como a vez que, lá pelos seis anos, após uma hora de interurbano, em pleno consultório, sem deixar desligar, disparou:
- Peraí papa, desliga não, desliga não, que eu vou só pegar um banquinho...

Ter uma filha, a cria, é inaugurar-se santo e aprender das lumeeiras que se acendem com seu riso, do beijo feito água-benta, do afeto agradecido, das chuvas de seu chamego, vestidos e do irresistível pedir feminino.

Criar uma filha, entre fitas de cor e adesivos, é aprender a desprender-se, a cuidar para o outro, sabendo que um dia irá partir, como os bichos que criam asas e se metem de voar por aí. É saber que os casulos se dissolvem e as cantorias no carro, os apelidos, as histórias de dormir, serão enfeites na memória, pendurado nos caibros que sustentam a saudade e a permanência.

Ter uma filha é chorar disfarçado à primeira ameaça de distância, no primeiro ciclo menstrual, que anuncia a revolução dos hormônios e das escolhas. É a mudança das leituras, dos ídolos e das conversas intermináveis no telefone e no MSN. Ao mesmo tempo.

Ver uma filha se desenhando, roupa a roupa, relação a relação, decisiva e enfeitada, e vê-la brigar e perdoar com a mesma intensidade as melhores amigas, entre a manhã e a noite, talvez nos ensine que mulheres não podem ser regidas por nossa incompreensão. A nós, cabe apenas domar o rancor, porque elas oscilarão sempre entre o Atlântico e o Pacífico no mesmo quadrante de lua.

Ter uma filha, como concessão dos deuses, feito Luisa, meu minueto e dança com a vida, minha alegoria - desde o tempo que andava pendurada em mim como um embornal atirado sobre os ombros-, é descobrir, por fim, de que se tecem as esperanças e fantasias.

E, como sei que, ao lhe roubarem o primeiro beijo -escondido do pai, naturalmente, e com a cumplicidade da mãe-, você terá começado a mais longa de todas despedidas, foi que te mandei flores. Que sejam minhas, talvez, tuas últimas flores de menina e as primeiras de teu ensaio de mulher...

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

É proibido proibir




Longe de mim meter-me nos balacobacos filosóficos e similares que envolvem o conceito de liberdade, mas desde que alguém subiu o monte bíblico e teve uma epifania divina que o proibido entrou para nosso dia a dia. Verdade que as pedras da lei apenas deram boas idéias e nunca impediram ninguém de cobiçar a mulher do próximo, desde os tempos em que era o homem que cobiçava.

A liberdade é uma idéia em nome da qual milhões tem morrido e crimes bárbaros têm sido cometidos. É necessidade inalienável do humano, embora, nem sempre saibamos perceber quando estamos sendo encarcerados subliminarmente ou até mesmo de forma extensiva e ela só se torne perceptível na ausência.

O dado concreto é que nossas escolhas estão sendo manipuladas por interesses dos mais diversos: econômicos, coletivos, de grupos, políticos, de classe, o que nos faz crer que o verdadeiro preço da liberdade é a eterna desconfiança.

Pois foi sabendo que a vaca da liberdade estava sempre a um passo de ir para o brejo que, em 68, os estudantes da Sorbonne e da Naterre botaram fogo, literalmente, no carro da história e fizeram uma revolução, sem programa, ou como diziam, sem deus nem mestre, implantando, de forma irreversível, em nosso imaginário, o proibido proibir, que afinal virou trilha sonora ao ser musicado por Caetano.

Embora a liberdade de expressão seja um preceito básico das democracias e seu direito seja defendido pela Declaração Internacional dos Direitos Humanos e Convenção Européia de Direitos Humanos, e a Constituição, a simbiose de preconceitos e interesses tem, seguidamente, violado e limitado o exercício da cidadania e das opções sexuais, políticas e do direito de opinião da coletividade.


Apesar de Kant dizer que ser livre é ser autônomo e Sartre afirmar que a liberdade é condição ontológica do ser humano sendo este, antes de tudo, livre, vivemos um permanente estado de insegurança e medo de exercer o sacro e vital direito da discordância e da fala.

No governo passado fomos ameaçados com a tentava de impor o pensamento único que classificava de noebobos os opositores. Agora se apela para a manipulação desavergonhada de qualquer critica feita ao governo, como se a origem humilde do presidente fosse um salvo conduto, um habeas-corpus divino e eterno e discordar, cobrar, criticar tenha que ser demonizado em nome de um passado que a cúpula destes dirigentes já não tem, faz muito tempo.

Exemplo deste cerceamento é o movimento Cansei e as vaias que acompanham o presidente. Podemos não confiar nos lideres do movimento, ou não gostar do ato dos estudantes, mas a violenta reação contra o Cansei e os estudantes acusados de falta de consciência representam a necessidade de uma unanimidade que, como todas, é apenas burrice.

A opinião divergente seja de quem é meramente opositor, ou de quem não tolera a opção política, a inapetência administrativa, a impunidade, os mensalões, o caos aéreo, e o aparelhamento do estado, devem ser respondidas com ações e não com tentativas agressivas de menosprezo.


Não custa lembrar que preconceito não é via de uma mão só, nem privilégio de classe. Mas, como já dizia Einstein, é mais fácil desagregar um átomo do que os preconceitos. Prefiro ouvir Caetano...

terça-feira, 28 de agosto de 2007

As mulheres e a despensa

Mulheres - Di Cavalcanti


Eu contei. E confirmei. São doze. Minha despensa tem doze armários, mas, por estranha norma de organização doméstica, não cabem meu estojo de vacina e duas caixinhas de antibiótico veterinário que uso lá no sítio.


Norma Norma que não existe de direito, mas existe de fato. Por regulamentação não escrita, por determinação que não consta nem dos sacramentos religiosos nem do Código Civil, as mulheres decidem, durante o casamento, o que devem guardar nas despensas. Fica reservado a elas o supremo direito de confinar todos os nossos objetos pessoais a uma caixa de papelão. Na hierarquia domiciliar, nossa necessidade de espaço na despensa vem depois da escova do cachorro e do pacote de ração. E olhem que no meu caso nem cachorro eu tenho.

Elas nos julgam colecionadores de quinquilharias, tão descartáveis quanto os conselhos da sogra de como elas devem nos tratar. Foi assim na minha primeira casa, onde perdi uma inestimável série do Batman -Cavaleiro das Trevas, desenhada pelo Frank Miller e uma coleção completa de Epopéia Tri, relatando a conquista do Oeste, comprada número a número pelo reembolso postal, escarafunchando anúncios de volumes atrasados como um antropólogo recolhendo objetos na tumba de Tutankamon. Isto sem contar todos os exemplares da Playboy atirados impiedosamente ao lixo, com astúcia e a inescrutável lógica de que acumulava poeira e fazia as crianças espirrarem. Mesmo que não as folheassem.

As despensas, como vocês sabem, são uma espécie de Àgora, a praça grega onde ocorriam todos os debates democráticos. Em torno dela é que se dá a verdadeira batalha conjugal. Do controle do que entra e sai na despensa familiar é que emana o verdadeiro poder. É lá que se concentra a memória existencial da família, onde fica retratado seus hábitos e costumes. Um pesquisador do futuro escavando nos escombros de minha despensa teria extrema dificuldade em encontrar provas da minha presença na estrutura familiar, concluindo ser a nossa uma sociedade primitiva, sob domínio feminino, onde o macho provavelmente ficava ausente tentando caçar um javali.

Aliás, as mulheres também decidem o que guardar na memória afetiva, não nos consultando em nenhum momento sobre esse insondável processo seletivo de acontecimentos da vida em comum, que sempre serão lembrados nos momentos mais inconvenientes, como aquela vez que você derramou vinho nas pernas da melhor amiga dela.

Como uma Hamurabi do lar, a mulher legisla em causa própria, estendendo seus domínios com voracidade e soberania imperial. Nem cito a geladeira por ser terreno belicoso onde sequer podemos nos aventurar a esconder uma lata de cerveja por trás da horta refrigerada que elas cultivam e refazem com a disciplina de um monge budista.

Aliás, observar a composição da geladeira é o único meio seguro e eficaz de se saber o estado civil de um homem. O casamento torna inversamente proporcional o número de garrafas de cerveja, latas de ervilha e patê de ricota da sua vida de solteiro.

Conhecedor da fúria das mulheres e do ciclone que podem desencadear quando contrariadas, e impossibilitado de ficar sem minhas bugigangas já decidi providenciar outra caixa de sapatos.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

A falta que o mal nos faz


As flores do Mal - Helio Schomann


Houve tempo em que uma vida completa consistia em fazer um filho, plantar uma árvore e ler um livro. As ilusões eram possíveis e as utopias preenchiam nosso imaginário. O mundo mudou, ficou mais fácil fazer o filho, mas não sabemos o que fazer com ele depois de pronto. Entramos na era do carbono-free e mal conseguimos cuidar de uma samambaia plástica e ler um livro, como diz o presidente, é “pior que fazer esteira”.


Você lembra que seus pais lhe diziam que o trabalho compensava, a honestidade podia ser garantida com um fio de bigode e as mulheres amavam para sempre. Os ladrões roubavam galinhas, não saíam nas colunas
sociais nem ocupavam cargos públicos, a justiça eratardia mas não faltava, e você podia confiar em Deus e nas notas promissórias, com igual fé.


O mundo era dividido em sexos, garantidamente opostos, capitalismo e socialismo eram modelos econômicos diferentes - o bem e o mal, a depender da preferência-, e esquerda e direita não eram posições transgênicas.


Sexo era uma conseqüência e uma possibilidade – sonhada, mas nem sempre possível-, e não condição obrigatória e estatistica, ou ato banal. Para isto, existiam as moças de vida fácil. E as moças de vida fácil, sabia-se exatamente quem eram e, até elas, eram confiáveis e se apaixonavam com a devoção que só quem tem todos sem ter ninguém é capaz de oferecer.

A principal droga era o álcool e não o futebol que jogamos hoje, e a verdadeira ainda não botava banca e era tão difícil de comprar quanto um catecismo do Zéfiro, coisa de artistas, e nunca merenda de porta de colégio. A honestidade não estava em extinção como as baleias e a virgindade e a palavra dada era para ser cumprida a ferro e fogo.


Mas o principal, era que, apesar de eventuais perversões ou asneiras todos sabiam o que era lícito e ilícito, moral e imoral, certo e errado, e os costumes se balizavam nesta linha ao mesmo tempo fictícia e indestrutível. Sabíamos, pelo menos, como dizia Sartre - que esteve aqui com sua Simone, para ver a feira livre; ambos já meio decaídos, Sartre e a feira livre-, que o inferno eram os outros. Mas, sabe-se lá por que motivos -talvez a comunicação, o darwinismo social, ou o buraco de ozônio-, perdemos completamente o limite entre o que é digno ou devasso, o permitido e o proibido, o aceitável e o indecente.

Perdemos a nobreza e as qualificações pessoais e os fins passaram a justificar plenamente os meios. Ninguém, ou nada mais, é essencialmente bom ou ruim, mas habitamos de forma híbrida a fronteira da ética, num vai e vem, ao sabor das necessidades e das ocasiões.


Todos os comportamentos: a riqueza ilícita, a agressividade gratuita, o cinismo e o oportunismo político, o alpinismo social, as opiniões de encomenda, a indiferença, o lucro sem pudor, são plenamente justificáveis. Simbolicamnete, um empresário paulista de bordéis declarou:“sou imoral, devasso, depravado, mas pago meus impostos e estou em situação legal”.

E, assim, vamos fingindo não conhecer as distinções entre o bem e o mal. E, de tanto fingir que não sabemos acabamos compactuando com o inaceitável.


Bons tempos em que sabíamos exatamente a diferença entre as coisas e podíamos ensinar nossos filhos, na esperança de que ensinassem aos seus, mesmo sabendo que a vida é passar e perder. Agora que tudo é nebuloso e justificavel só lamento a falta que o mal nos faz.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Espelho

" Eu sempre soube atrelar meus demônios à minha carroça. Eles continuam me atormentando, mas eu os obrigo a me ser útéis"

Ingmar Bergman

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Shaw

Não faça aos outros aquilo que deseja que façam a você. Pode ser que eles não tenham o mesmo gosto...

Bernard Shaw

segunda-feira, 23 de julho de 2007

O perigo está no ar

Diz um pensamento de John Donne que a morte de qualquer homem me diminui, porque a humanidade me contém. Banalizados pela morte cotidiana, desenvolvemos, como defesa, a indiferença, a “normalidade psicológica” ou então nos recusamos a ler, ouvir, ou ver as notícias, nos mantendo iludidamente protegidos.
Revejo, desde ontem, as terríveis imagens que registram o acidente da TAM, em Congonhas, na maior tragédia da aviação brasileira. E, embora não tenha nenhuma ligação com as vítimas, exceto ser parte da humanidade, me sinto prostrado, com um leque de sentimentos que vai da fúria à indignação, do medo à consternação pela dor coletiva.

Neste mundo de hoje é capaz de alguém perguntar porque, já que não tenho nada a ver com o fato. Não é de estranhar. Estamos nos tornando pessoas cada vez mais isoladas onde qualquer sentimento de solidariedade soa hipócrita. Não importa se parecer hipócrita, mas tive lágrimas nos olhos, vendo uma mãe descobrir seus dois filhos na lista de mortos. Talvez seja apenas a irmandade de também ser pai. Talvez. E de quem teme o dia a dia dos filhos, expostos a todos os riscos, nesta sociedade desigual e irresponsável.

A fúria, entretanto, é ver uma tragédia que poderia ser evitada. Não se trata aqui da crucificação pessoal do presidente, mas de um governo, que se mostra incapaz de resolver uma crise aérea, por falta de gerência, de autoridade, por tolerância com um Ministro de Defesa, amorfo, inadequado, e líderes que vão de declarações amebianas do tipo “relaxa e goza” ao cinismo do Mantega de que é o “preço do sucesso”. Tal nível de descompromisso, de responsabilidade, não é aceitável, nem tolerável.

Enquanto isto a Infraero é denunciada pelo TCU, e por uma empresária, como um antro de corrupção de todo o tipo, que transforma os aeroportos brasileiros em redes de shopping mais do que em rede de vôo. Do outro lado temos uma agência reguladora, ANAC, que serve apenas para apadrinhar companheiros, tendo, reiteradamente, mostrado sua ineficiência durante toda esta crise, sem sequer ser capaz de enfrentar e regular as empresas de aviação, que fazem overbooking à vontade, sem nenhum tipo de interferência governamental.

Já não importa se o piloto tocou a pista “ além do ponto de toque”, se os freios falharam, o que é quase impossível no Airbus. A estupidez é que a pista de Congonhas foi liberada sem estar em condições ideais de pouso, como mostram as conversas entre torre e pilotos, quando outros aviões já haviam derrapado e, quando, na véspera, como um triste alerta de uma tragédia anunciada, um avião da Pantanal foi parar na grama, local onde pastam bois e não aeronaves. Ao longo dos anos, também é verdade, não se respeitou o entorno do aeroporto, porque é típico dos políticos brasileiros a tolerância com o erro, sempre mais lucrativo do que o desgaste do enfrentamento.

Nenhum sistema aéreo do mundo, registra, em tempos modernos, duas tragédias de tal proporção em tão pouco tempo. Nem nos confins do planeta, onde se voa por intuição e reza. Portanto, é nítido, claro, que o conluio da corrupção, com a irresponsabilidade técnica, falta de planejamento, inadequação de infra-estrutura, treinamento e equipamentos, estão nas raízes desta tragédia, cruel, bárbara, violenta, dolorosa. E, em cada uma delas, pode ser encontrada a digital de um governo omisso, sem liderança, sem cadeia de comando, retórico, conivente.

Deus, na idéia que cada um tem dele, ajude a todos a suportarem a dor inenarrável de quem teve os seus carbonizados, de quando a vida é amputada, não pelo inesperado, que sempre há de acontecer, mas de quando poderia ter sido evitado. E eu, diminuído, peço ao Deus meu, de como o entendo, me ajude a ser menos emotivo, a agüentar a vida como ela é, e os leitores desta Tribuna a me perdoarem por repartir com eles este sentimento pessoal, indignado, de um homem comum.